café&cerveja

Café. As vezes com açucar, as vezes não. Cerveja. As vezes gelada, as vezes não.

quinta-feira, maio 25, 2006

O loiro de brincos e a moça do cafezinho.

- Ufa, ele apareceu.

Hoje já seriam 3 dias completos, mais de 72 horas sem ela visse o loiro de brincos.
Joana se acostumara com a rotina. Cinco anos servindo café na mesma padaria, da mesma Teodoro Sampaio, tinham ensinado a ela que, por uma razão desconhecida, as pessoas gostam de repetir seus dias, gostam de fazer sempre a mesma coisa, no mesmo horário e, de preferência, no mesmo lugar. No caso dela, a repetição dos dias e das pessoas podia ser medida em xícaras de café e copos de cerveja; as bebidas que de uma forma quase inconsciente marcavam o entrar e sair das horas. A coisa não se anunciava na sua cabeça dessa maneira tão analítica, era mais um sentimento, uma coisa, um jeito de ver o ir e vir da vida simples que levava.
Conforme o turno que Joana pegava na padaria, uma era uma das duas bebidas que ditava o girar dos clientes. Como aquele despertador barato vendido no Largo da Batata que só era desligado aos domingos, parecia a Joana que o café e a cerveja tinham o poder de marcar com uma precisão misteriosa o que deveria ser feito em cada uma das horas do dia. Esse passo militar em que o mundo andava provocava nela uma angústia estranhamente confortável. Era como se o mundo se repetisse, fosse sempre igual. Certos dias, era como se todos aqueles clientes indo e vindo, quisessem provocar Joana, teimando em ter pressa quando deviam ser pacientes, ou querendo ficar e ficar quando tudo o que deviam fazer é ir pra casa.
Logo quando foi contratada Joana pegava o turno da tarde, e seus dias demoravam pra acabar sempre por culpa dos mesmos bêbados animados falando de futebol e mulher depois do expediente. Na época, Pinheiros era um lugar longe e ninguém se importava com o horário do último ônibus. Quando passou para o turno da manhã, o que Joana reparava era a correria dos clientes. Sempre o mesmo pão na chapa e a mesma média, olhar vago e correria. Ela não colocava nestes termos, Joana nunca fora boa em prestar atenção, em explicar essas coisas pro pessoal da padaria. Ela via, era mais um perceber.
Dentre todos aqueles clientes do mesmo bom dia, o único que parecia encantar Joana era o moço loiro de brinco. Ela não sabia dizer desde quando ele freqüentava a sua vida, nunca tinha ouvido sua voz e mal sabia como chamar aquela preocupação, aquele repensar constante. Como a maioria dos clientes, ele chegava sempre num horário marcado, no meio da manhã e sempre escolhia uma entre duas mesas. Freqüentava a padaria umas três, quatro vezes por semana, nunca aos sábados. Também não conversava com ninguém e não fumava. Joana o achava elegante, mas o que mais chamava sua atenção, era o fato de que o moço loiro de brinco tomava cerveja de manhã.