Dois metros de frente e sete metros de fundo.
Olhando da calçada pra dentro do comércio, a única coisa que chama a atenção é a dificuldade de se perceber qualquer coisa dentro daquele ambiente. Caso você decida parar pra tomar uma Antarctica e seus olhos se acostumarem à escuridão das lâmpadas queimadas, surge o cenário do boteco triste.
Do lado esquerdo, o balcão vermelho e amarelo de fórmica se estende desde a entrada até o final do bar, pra proteger a porta do banheiro e do depósito. Sobre ele, apenas um totem de salgados sabor torresmo e uma pequena estufa vazia. O público local tem a grana curta e cozinhar dá muito trabalho. O revestimento de fórmica falta em alguns pedaços e não há bancos. Caso as duas mesas que ficam na direita estejam ocupadas, o que não é incomum, bebe-se de pé.
A parede do fundo do bar é decorada com dois pôsteres de mulheres vendendo bebidas. Um azul de cerveja e outro branco e amarelo. Na parede da esquerda a única estante da parede resume o cardápio local em poucas variedades de cachaça e múltiplas cores de outros tipos de destilado. A geladeira fica ao fundo. Não se vê a sua cor, pois ela está escondida pelo balcão.
Por conta do hábito e do dinheiro, os freqüentadores passam muito tempo conversando e pouco bebendo. Chegam, tomam uma ou duas, conversam o mesmo papo até a fome bater de novo e se vão. O bar é tão pobre que não chega a ter uma máquina de caça-níqueis.
Atrás do balcão aquele mesmo senhor, de camisa bordô e cabelo branco. Ele está velho e a raiva já diminiu. Ele já não lembra bem, mas parece que desde o começo dos anos noventa ele não mata mais ninguém.
